o phba

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Sobre

Nome: Paulo Henrique Barbosa de Araújo (por isso o “O PHBA”);

Idade: 25 anos;

Onde mora: Contagem/MG

Os temas abordados nas publicações desta página se originaram de intuições que me fizeram enxergar algum ponto de vista que ao mesmo tempo se mostrou relevante e inédito para mim.

A motivação de eu ter criado esta página se explica perfeitamente naquilo que o filósofo francês A. D. Sertillanges descreveu com notória clareza em seu livro “A Vida Intelectual: Espírito, Condições e Métodos” (Coimbra: Arménio Amado, 1940). Segue o trecho:

 

CAPÍTULO VIII – O trabalho criador

I – Escrever.

Chegou o momento de realizar. Não podemos passar a vida só a aprender e a preparar. Além de que, aprender e preparar exigem uma dose de preparação: para encontrar um caminho é preciso enveredar por ele. A vida decorre em círculo. Órgão, que se exerce, cresce e fortifica-se; órgão fortificado exerce-se mais vigorosamente. É preciso escrever ao longo da vida intelectual.

Escrevemos primeiramente para nós, para ver claro nos nossos casos, para determinar melhor os pensamentos, para suster e avivar a atenção que depressa esmorece se não for instigada pela ação, para estimular as pesquisas necessárias para levar a cabo a produção, para reanimar o esforço que se cansaria não vendo os resultados, enfim para formar o estilo e adquirir um valor que completa todos os outros valores: a arte de escrever.

Escrevei e publicai, desde que juízes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar. O pássaro sabe muito bem quando há-de lançar-se no espaço; melhor do que ele o sabe a mãe; apoiado em vós e numa prudente maternidade espiritual, voai logo que puderdes. O contacto com o público obriga o escritor a constante trabalho de aperfeiçoamento; os louvores merecidos animam-no; as críticas fiscalizam-no; ser-lhe-á, por assim dizer, imposto o progresso, em vez da estagnação que pode resultar do perpétuo silêncio. A paternidade espiritual é sementeira de bens. Toda obra é manancial.

O P. Gatry insiste muito na eficácia da escrita. Quer que se medite sempre com a pena na mão e que a hora pura da madrugada seja consagrada a este contacto do espírito consigo próprio. Devem tomar-se em consideração as disposições pessoais; mas é certo que, para a maior parte, a pena, que corre, desempenha o papel do treinador nos jogos desportivos.

Falar, é ouvir a alma e, nela a verdade; falar solitária e silenciosamente por meio de escrita, é ouvir-se e sentir a verdade com a frescura de sensação dum homem matinal que ausculta a natureza logo ao despontar do dia.

Em todas as coisas, é preciso começar: “o começo é mais que metade duma coisa”, disse Aristóteles. Quem não produz, habitua-se à passividade; o medo de orgulho – porque o
orgulho também gera o medo – ou a timidez aumentam mais e mais; recuamos, cansamo-nos de esperar, tornamo-nos improdutivos.

A arte de escrever, dissemos, exige a longa e precoce aplicação que paulatinamente se
converte em hábito mental e constitui o que se chama o estilo. O meu estilo, a minha
pena, é o instrumento espiritual de que me sirvo para me dizer e dizer a outrem o que
ouso da verdade eterna; é qualidade do meu ser, vinco interior, disposição do cérebro
animado, sou eu envolvido de certo modo. O estilo é o homem.

O estilo forma-se, escrevendo; o mutismo diminui a personalidade. Se quereis ser alguém, intelectualmente, precisais de saber pensar alto, pensar explicitamente, isto é, formar, dentro e fora de vós, o vosso verbo.

Chegou a ocasião de dizer em breves palavras o que deve ser o estilo para corresponder aos fins sugeridos aqui ao intelectual.

Seria prudente não escrever, para ousar dizer como se escreve. A humildade não oferece
dificuldade, quando diante de Pascal, La Fontaine, Bossuet, Montaigne, se sofreu a influência dum estilo superior. Pelo menos ficamos conhecendo o ideal a que visamos e não alcançamos.

Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos quantos se quiser; tudo, porém, creio eu, se resume em três palavras: verdade, individualidade, simplicidade, a não ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade.

O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contacto íntimo com as coisas.

O discurso é ato de vida: não deve representar um corte na vida. É o que sucede quando
caímos no artificial, no convencional; Bergson diria no tout fait. Escrever por um lado, e por outro viver vida espontânea e sincera, é ofender o verbo e a harmoniosa unidade humana.

O discurso de circunstância é o tipo das coisas que se dizem porque é preciso dizê-las,
das coisas que só se pensam literariamente, gastando com elas aquela eloquência de que a verdadeira eloquência zomba. Por isso o discurso de circunstância muito frequentemente não passa de discurso de ocasião. Pode acontecer que seja genial, e temos exemplos de sobra em Demóstenes e Bossuet; mas só o é, se a circunstância extrai do nosso íntimo o que de lá brotaria igualmente por si, o que se prende com as opiniões pessoais, com o objecto das meditações habituais.

A virtude da palavra, falada ou escrita, é a abnegação e a retidão: abnegação que afasta a
personalidade, quando se trata de intercâmbio entre a verdade que fala dentro e a alma que escuta: retidão que expõe sinceramente o que foi revelado na inspiração e não lhe acrescenta palavras inúteis.

“Olha para o teu coração e escreve”, diz Sidney. Quem assim escreve, sem orgulho nem
artifício, como para si só, fala, de fato, para a humanidade, se é que possui o talento de
pronunciar uma palavra verídica, na qual a humanidade se possa reconhecer como sua
inspiradora. A vida reconhece a vida. Se me contento com entregar ao próximo um pedaço de papel impresso, talvez o próximo lance um olhar de curiosidade, mas depressa se desfará dele; se, porém, sou árvore que oferece folhas e frutos suculentos, se me dou com plenitude, então convencerei e, como Péricles, deixarei o dardo cravado nas almas.

Para obedecer às leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou, antes, no
íntimo delas, porque pensar é conceber o que é, e escrever verdade, ou por outra escrever de acordo com o pensamento, é revelar o que é, e não enfiar frases. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem e determinem os termos que as devem exprimir.

O discurso deve corresponder à verdade da vida. O ouvinte é homem; logo o discursador não deve ser sombra. O ouvinte mostra-nos uma alma que quer ser curada ou iluminada: não lhe propineis só palavras. Enquanto desenrolais períodos, olhai para fora e para dentro de vós e procurai sentir a correspondência entre a vossa personalidade e a de quem vos escuta.

A verdade do estilo afasta o molde. Chamo molde a uma verdade antiga, a uma fórmula que passou para o uso comum, a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem perdido o contato com a realidade donde nasceram, por flutuarem no ar, vãos ouropéis que tomam o lugar do autêntico ouro, o lugar de transcrição direta e imediata da ideia. Como observa Paulo Valéry, o automatismo gasta as línguas. Para viver, acrescenta o mesmo autor, temos de utilizar sempre a sintaxe em plena consciência, aplicando-nos a articular com vigilância todos os elementos, evitando certos efeitos que espontaneamente se ingerem esperando a vez de se fazerem valer. Semelhante pretensão é o motivo por que devemos apartar esses parasitas, esses intrusos, esses maçadores.

O estilo superior consiste em descobrir os laços essenciais entre os elementos do pensamento, e na arte de os exprimir com exclusão de qualquer balbucio acessório.

Escrever como o orvalho se deposita sobre a folha e as estalactites se suspendem do tecto das grutas, Como a carne deriva do sangue, como a fibra lenhosa se forma da seiva(Emerson. Autobiographie, Edit. Régis Michaud, pag. 640, Paris, Colin.): eis o ideal.

A pessoa orgulhosa e perturbadora estará ausente de semelhante discurso; mas a
personalidade da expressão só ganhará em nitidez e relevo. O que sai de mim sem mim é
necessariamente semelhante a mim. O meu estilo é o meu rosto. O rosto tira da espécie os seus caracteres gerais, mas ostenta individualidade empolgante e incomunicável; é único em toda a terra e em todos os séculos; daí vem, em parte, o interesse do retrato.

Ora o nosso espírito é decerto muito mais original do que o rosto; mas ocultamo-lo por detrás das generalidades adquiridas, das frases tradicionais, das alianças verbais que só representam velhos hábitos em vez de representarem amor. Mostrá-lo tal qual é, apoiando-nos nas aquisições que a todos pertencem, mas sem nos esquecermos de nós, suscitará interesse inesgotável, será a arte.

O estilo, que convém a um pensamento, é como o corpo que pertence à alma, como a planta que provém da semente: tem arquitetura peculiar. Imitar é alienar o pensamento; escrever sem caráter é declará-lo vago ou pueril.

Nunca se deve escrever à maneira de… nem mesmo à maneira de si próprio. Para quê
ter maneira? A verdade não a tem afirma-se sempre nova. O som da verdade tem de ser pessoal a cada um dos instrumentos.

Os homens verdadeiramente superiores, escreve Júlio Lachelier, foram todos originais, embora o não tivessem pretendido nem se tivessem julgado tais; pelo contrário, procurando fazer das suas palavras e dos seus atos a expressão adequada da razão, encontraram eles a forma particular de a exprimir. 

Todo o instrumento tem timbre. Se a maneira é afetação, a originalidade verdadeira é fato de verdade que, em vez de enfraquecer, reforça a impressão que o leitor, por seu turno, receberá. Não proscrevemos o sentimento pessoal que tudo renova e glorifica, mas sim a vontade própria contrária ao reino da verdade. Daí brota a simplicidade. Os floreados constituem ofensa para o pensamento, a não ser que se empreguem como simples expediente para encobrir o vácuo da mentalidade do escritor. No real não há floreados; só há necessidades orgânicas. Não quer dizer que não haja na natureza nada de brilhante; mas nela o brilhante é também orgânico, sustentado por substruções que nunca falham. Para a natureza, a flor é tão grave como o fruto, e a folhagem tão grave como o ramo; a árvore, que se firma na raiz, não faz mais do que manifestar o germe onde se esconde a ideia da espécie. Ora, o estilo, quando é de mão de mestre, imita as criações naturais. Uma frase, um trecho escrito devem ser como ramo vivo, como os filamentos da raiz, como a árvore. Nada de mais, nada ao lado, tudo na curva pura que vai do germe ao germe, do germe desabrochado no escritor ao germe que deve desabrochar no leitor e propagar a verdade ou a bondade humana.

O estilo não é um fim; desvia-o e avilta-o o escritor que faz estilo só pelo estilo. Amesquinha a verdade quem só se apega à forma, quem só é rimador em vez de ser poeta, estilista em vez de escritor. Quem possuir o gênio do estilo, deve levá-lo à perfeição, que é o direito de quanto existe. Todo escritor anseia ser mestre no estilo, como o ferreiro é mestre na forja. Ora, qual o ferreiro que se diverte em tornear volutas por prazer?

O estilo exclui a inutilidade; é economia no seio da riqueza; gasta o que é preciso, poupa aqui, prodiga ali para a glória da verdade. O seu papel não é brilhar, mas fazer aparecer: quando ele se apega, é que a sua glória reluz. O belo corta o supérfluo, dizia Miguel Angelo, e Delacroix releva neste artista os soberbos embutidos, as faces simples, os narizes sem minudências. Mas nessa simplicidade não deve passar despercebida a firmeza de contornos, como em Miguel Angelo, em Leonardo e, sobretudo, em Velasquez, ao contrário do que sucede v. g. em Van Dyck, o que é ainda uma lição.

Uma vez que determinastes um pensamento ou sentimento, expressai-o de sorte que todos vos compreendam, como convém a um homem que fala a outros homens e procura atingir neles o que direta ou indiretamente é órgão de verdade. Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das almas(Gatry, Les Sources).

Não sejais escravos da moda. Dai água de nascente, não drogas de farmácia. Muitos
escritores, hoje, criam sistemas: ora um sistema é algo do artificial e o artificial ofende a
beleza. Cultivai a arte da omissão, da eliminação; da simplificação: eis o segredo da força, que os mestres não se cansam de repetir, como S. João Evangelista não se fartava de incular: Amai-vos uns aos outros. A lei e os profetas, em matéria de estilo, é a inocente nudez que revela o esplendor das formas vivas: pensamento, realidade, criações e manifestações do Verbo.

Infelizmente, é rara a inocência do espírito; quando existe, alia-se por vezes à nulidade. Por isso, só duas espécies de espíritos parecem predispostos para a simplicidade: os de pequena envergadura e os gênios; os restantes são obrigados a adquiri-la laboriosamente; incomoda-os a própria riqueza e não sabem reduzir-se.”

 

 

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