Raskolnikov e Sônia – Parte 1: Trevas e luz

No livro Crime e Castigo, Dostoiévsky conta a história de um jovem e ambicioso estudante que comete um assassinato. Mas Dostoiévsky é um dos maiores autores da história humana, e o é em razão de descrições que faz dos percursos mentais pelos quais seus personagens passam antes, durante e depois de seus atos, dos atos mais importantes para aquela história que ele está contando.

Quem tem lido as últimas postagens que fiz aqui no blog, percebe que tenho escrito muito sobre amor. É como se meus sentidos estivessem mais atentos ao amor do que à qualquer outra coisa, nas últimas semanas. E foi assim, coincidentemente ou não, que cheguei à parte de Crime e Castigo, em que o protagonista, o agora assassino, Raskolnikov, finalmente não resiste e desabafa, confessa, seu crime à alguém. E essa pessoa foi justamente a mulher que o amava.

Qual é a consideração que damos às pessoas que nos amam e que estão apaixonadas por nós, enquanto não sentimos o mesmo? Na maioria das vezes temos o impulso de nos afastar dessas pessoas, pois elas passam a nos parecer obstáculos ao surgimento de pessoas que possam nos interessar de verdade, ou passamos a sentir pena delas, como se fossem pessoas que imploram por algo que jamais terão… Ralkolnikóv parece demonstrar isso de forma muito sutil. Primeiramente ele tem a certeza de que a outra pessoa não o denunciará ou fará qualquer coisa que ele diga que não quer que seja feito, mas, em segundo lugar, apesar de não menos importante, ocorreu dele ser recebido, ouvido, com total compaixão, e eis que a consequência disso se revelou muito mais grave do que ele jamais poderia prever. Raskolnikóv ao perceber-se tão amado, mesmo por alguém que ele não ama, sente-se mais miserável do que antes, quando sabia-se só no mundo, abandonado de todos os laços humanos mais profundos. Portanto, o que podemos dizer dessa experiência?

O amor é uma decisão. O amor, enquanto decisão, só se sustenta com o apoio divino, – assunto para outro texto. Unindo este ponto à questão levantada, podemos dizer que ao receber o amor de alguém é impossível manter-nos incólumes. Além disso, o amor é algo que nos convida à elevação, ao crescimento espiritual, algo que nos convida à união eterna com outra pessoa, que nos leva à uma nova realidade. Ao perceber-se amado, Raskolnikov recebeu essa carga, e ela contrastou com a miséria em que ele estava inserido, da qual faz parte seu grande pecado, e tudo isso parecia prendê-lo ao mundo, às profundezas do inferno, tornando assim mais visíveis e mais perceptíveis todas as limitações às quais suas más decisões e suas tentações haviam o levado, expondo a miríade de coisas que ele jamais poderá vivenciar.

Será então que nenhuma pessoa em pecado mortal pode amar? Essa pergunta não deve ser respondida com o exemplo de Raskolnikov, no sentido de sabermos se ele seria capaz de amar Sônia se quisesse, mas sim um exemplo que exponha os fundamentos do sentimento da pessoa em pecado mortal que diz amar uma outra.

O amor só se sustenta com o apoio divino. Na acepção Cristã, que é a que acredito, o divino tem uma única direção, que é a salvação das almas, a aproximação à Deus. Então se duas almas se gostam e se propõem à amar uma a outra, este ato, esta decisão, se mantida, os levará inexoravelmente à única direção possível. E assim, o pecado que antes era um obstáculo, agora é a oportunidade de transcendência, um degrau para o alto, pois mesmo enquanto ele era um obstáculo, ele não impedia as pessoas de tentarem se amar, e por isso, justamente por isso, por ter mantido a possibilidade, por ter mantido a miséria da condenação exposta e em contraste com as belezas do amor verdadeiro, o obstáculo iluminou o caminho da salvação de ambos os amantes.

 

 

Continua.

Dos olhos que brilharam

Não há em mim lembrança
de visão tão terrível
quanto esta que me encanta

não há nem nas velhas poesias
registro de momento
como este que me ergue das calmarias

mas o que importa é ter sentido
deslumbre que não conhecia
arroubo em sonhos jamais vivido

beleza em sua definição exaurida
tornou divina minha bela favorita

ao ver sua inédita composição
senti meus olhos brilharem
por mais que amor ou paixão

ali soube que sempre irei amá-la
que será para mim eterna luz imaculada

assim soube que sem lágrimas estavam brilhando
como duas luas, meus olhos, ao vê-la raiando

A paz esquecida

Seu carro precisava ter o reservatório de água trocado, depois do trabalho Berton o deixou numa oficina perto de sua casa, para pegá-lo na manhã do dia seguinte.

Era meados de agosto, o frio invernal, severo para os brasileiros do sudeste, havia passado há poucas semanas. A brisa parecia reconfortante como nunca, o sol do entardecer lançava seus raios douradíssimos sobre as casas daquele bairro de classe média e sobre as árvores que agora abriam mão de sua folhagem castigada pelo frio, como se fosse por esperança que elas fizessem isso, esperança de que por compaixão a natureza fosse lhes proporcionar folhas novas, fortes e verdes, capazes de lhes manter vivas.

Berton descia um longo morro, caminhando, algo que não fazia havia alguns meses. O horário trazia as pessoas de volta à suas casas, e lhe parecia que o ritmo, a fluidez, a constância, transmitia a felicidade das pessoas que retornavam a seus lares, satisfeitas por terem cumprido a obrigação do dia, da mesma forma que a natureza fazia por aqueles lados, exibindo-se desgastada, mas bailando serenamente no compasso do vento que vez ou outra surgia elevando os galhos e suas sombras, obrigando os passarinhos a adaptarem-se à correnteza para manter a direção, lançando ao alto algumas das folhas caídas, que erguiam-se num salto e desciam rodopiando junto das folhas que experimentavam a queda pela primeira vez.

Era uma sinfonia. Uma sinfonia simples, discreta, sem solos, e sem trechos de grande complexidade, poucos instrumentos também, claro, mas uma sinfonia. E os sentidos de Berton captavam-a como a própria Valsa das Flores, de Tchaikovsky. O ar invadia seu peito, energizando-o e alegrando-o ao mesmo tempo, e memórias largadas ao pleno esquecimento retornavam em sequência, memórias que revelavam um segredo que ele jamais esqueceria: os momentos felizes parecem ser registrados na memória sobre um papel feito das notas mais sofisticadas que a natureza lançava-lhe enquanto os fatos se desenrolavam, mesmo que tais notas não tivessem sido sequer notadas enquanto tudo acontecia.

Essa sequência de lembranças, esse arroubo de paz, e finalmente o contato com algo que ele gostava de forma tão profunda, o fizeram vislumbrar as razões que o distanciaram de tudo isso, que bloquearam seus sentidos de forma tão avassaladora… Não haviam dúvidas. Havia sido a paixão por uma mulher. Uma paixão e uma grande história que durara muito pouco tempo, deixando nele uma saudade que nunca haveria de ser extinta, mas que ele decidira transformar em amor, num amor que deixasse talhado em seu coração a certeza de que mesmo se nunca mais visse sua amada, sentiria no peito a certeza de que a deseja muito bem, de que está disponível para ajudá-la se alguma desgraça lhe acometer ou mesmo se alguma saudade inesperada brotar em seu peito.

Tudo isso formou-se num piscar de olhos. E então ele abriu os olhos para a realidade tendo o peito preenchido por esta nova percepção, e então sentiu um novo desejo. Um desejo de ter sentido aquela simples presença da natureza ao lado de sua amada, enquanto estavam juntos, felizes e sentindo a eternidade unir-lhes por um fio de aparência mais firme que a corrente que segura a âncora de um navio transatlântico.

Ao chegar ao pé do morro, Berton dobrou à direita e vendo uma nova paleta de cores composta pelas buganvíleas que lançavam-se de dentro dos terrenos por sobre seus muros, sentiu-se maravilhado e poderia até mesmo dizer que outra música, outro ambiente e outro devaneio ressoava em seu peito, agora, talvez fosse o Dueto das Flores, de Leo Delibés. O raios solares, certamente bem corados, o vento aquecido, os passarinhos, o azul do céu, o frescor do entardecer, a paz de ter na vida todas as coisas certas, inclusive os problemas e limitações.

Assim surgiu em seu âmago uma dúvida que o fez suspirar por pura incompreensão: por que não estivera com ela em um momento como aquele? E então percebeu algo que lhe fez parar um momento e olhar cuidadosamente para tudo o que havia ao redor, um momento simples como aquele era a expressão fidedigna da realidade, bem mais do que os momentos que compuseram as situações em que estiveram juntos, fosse no trabalho, no carro, em restaurantes chiques, em shoppings, em supermercados, na mesa da cozinha do prédio em que trabalhavam, em motéis, no telefone, enfim. Parecia que em todos esses momentos havia um pouco de fingimento, um falseamento da realidade, como se a existência deles e portanto do desenrolar de sua história, ocorresse sem o fio que os conectava a eternidade da maneira que ocorria quando estavam tão unidos que o único elemento que seus sentidos captavam eram o corpo e a alma do outro, sem nada no meio, sem nada filtrando ou impedindo o contato direto, orgânico e sobrenatural, irascível e indiscutivelmente verdadeiro. Quando um pertenceu ao outro. Quando um fora o universo do outro.

Aproximando-se de casa, Berton sentia-se meio que deslumbrado pela beleza do pensamento que lhe ocorrera, como se não esperasse que da tradução de seus sentimentos viesse algo tão nobre, tão amável. Esse momento não era expressável em música, mas justamente naquela sensação que temos quando se encerra uma música que estávamos gostando muito de ouvir, em certo êxtase, sem dúvidas, uma satisfação pelos trechos de suspense, de alegria, de tristeza, de drama, a ponte, a virada e o clímax. O todo se revelara uma obra prima. Berton estava de volta à sua casa.