A história de um amor casto

São raras as pessoas hoje em dia que pensam na possibilidade de levar uma vida que não seja em busca de relações sexuais, e menor ainda é o número de pessoas que começam um relacionamento com o objetivo de fazer com que essas relações ocorram apenas depois do matrimônio. E a motivação deste ato sempre é a devoção aos mandamentos cristãos, ao objetivo de resguardar a ordem de importância das coisas, colocando em primeiro lugar o compromisso de um relacionamento eterno, e em segundo a adaptação de todas as outras coisas que fazem parte de um relacionamento, a adaptação recíproca de um ao outro.

O objetivo deste ensaio é especular sobre o que nós, velhos pecadores, estamos perdendo à não observarmos a castidade em nossas vidas e à não pensarmos na possibilidade de experimentá-la.

Toda a minha reflexão acerca desse tema começou no início do ano de 2017, quando li a postagem de Olavo de Carvalho no facebook, onde ele dizia:

“Para começar a entender a aventura suprema que é a vida cristã, você tem de se tornar capaz de viver um ou vários amores castos com uma intensidade apaixonada ainda maior que a da mais arrebatadora paixão erótica. Se isso lhe parece estranho ou impossível, leia “A Ladeira da Memória”, de José Geraldo Vieira, que ajuda um bocado.”

O impacto que essa postagem causou em mim explica-se pela minha tendência de sempre querer o que é melhor e mais elevado. Perceba que tais coisas geralmente são as mais baratas e as mais desgastantes, desafiadoras, e que somente revelam o bônus depois de terem exigido de nós todo o ônus necessário, que quase sempre é muito para quem, como eu, está imerso nos costumes mundanos, – mas cada vez menos, posso dizer. Portanto, diante dessa postagem, percebi que eu poderia simplesmente estar sendo miserável sem saber, e eu não queria isso para mim.

Ocorreu que meses depois de ter lido a postagem eu comprei o livro, foi difícil encontrá-lo pois ainda não havia sido reeditado; o encontrei num sebo, depois de muito procurar. Imediatamente me embreenhei em suas páginas, mas o achei muito chato, exceto por uma ou outra passagem, e então o li de forma muito arrastada, na esperança de que algo muito bom acontecesse.

O protagonista, Jorge, era um autor de romances, solteiro, e a mulher, Renata, era uma de suas leitoras, casada, mas ambos tinham plena consciência de que escolheram amar-se sem que houvesse todo e qualquer aspecto sexual na relação; sobre isso lê-se os seguintes trechos nas páginas citadas, na edição da Coleção Saraiva, 1950:

Renata: “(…)Acabei por ter certeza de que no nosso caso não preciso nem sequer superar nada, andar às voltas com problemas cruciantes de consciência, pois para te amar não necessito de transgredir sanções, já que meu sentimento por ti não supõe obrigatoriamente estratagemas e embustes ou transparências e sublimações” (pág 120)

Jorge: “(…)E com efusão declarei que almas como as nossas podiam e tinham o direito a uma qualidade de sentimento acima dos romances mesmo da vida. Que com isso não nos estávamos deformando, pois nosso interesse mútuo, nossa atração, decorrera de qualidades gêmeas, idênticas, sendo nós incapazes de urdir uma trama que redundasse em sofrimento e em estados intoleráveis de angústia.” (pág 122)

Renata: “(…) Só sei duma coisa: que te quero bem e isso não está certo para o mundo, para os outros… Logo, tenho que respeitar o mundo e os outros, já que não sou dona da perfeição e nem da exclusividade. E respeitar sem embuste; com nobreza. Mas… se te quero tanto bem! Se daqui a pouco te vais embora e fico sofrendo não nos sentidos mas na alma, profundamente! Então… nosso amor, para não colidir com o mundo tem obrigatoriamento que ser transfigurado numa coisa muito bela que não nos deforme. E nós somos capazes disso, não somos, Jorge? Somos. Se somos! E que sentimento podia ser o nosso senão uma coisa muito límpida perante a onisciência de Deus?” (pág 125)

Apesar da beleza contida nos trechos citados acima, e em muitos outros que não citei, eu ainda não estava gostanto da leitura, talvez porque não tinha ideia de onde iria chegar. Foi apenas no final do ano de 2018, mais de um ano após ter comprado o livro, que finalmente cheguei ao arrebatamento. Na página 212, são descritas as sensações que os dois personagens principais têm ao se ver depois de dois anos distantes um do outro, – nele, Renata está doente, e não pode sair de casa ou receber Jorge nela.

Jorge: “Dirigi-me para o lado que vai para a praia. Atravessei para a calçada de lá. Olhei para o prédio, pouco recuado da rua. Olhei para a sacada da frente, em cima. Um pouco para dentro, decerto devido a cautela e emoção, a vi. Passei olhando bem. Lá estava ela, em pé, morena, aquilina, esguia. Alguma diferença, sim. Mais magra? Não. Pelo contrário. Um quase nada mais forte, mais cheia. O rosto porém… Quando passei bem defronte, quase parando, ela avançou, mostrou-se e cobriu o rosto, a soluçar! Passei. Voltei. Estava para dentro, chorava, com o rosto tapado. Mas quando me viu bem defronte, parando, andando, parando, tirou as mãos do semblante, mostrou-se de novo, dando um passo a frente e tornou a recuar, em soluços. As lágrimas me caíram pelo rosto abaixo, e eu sentia uma emoção estrangulante, tudo rodando a minha volta, os meus nervos flagelados vibrando tanto que tive que me agarrar a um poste e ali ficar em atitude miserável, com o embrulho do romance numa das mãos e o chapéu na outra, olhando sempre naquela direção.

De lá, um pouco para dentro da sacada, ela não tirava o olhar de mim, maneando a cabeça, sorrindo e chorando, dizendo o meu nome, mostrando o livro na minha mão, fazendo que o pegava e o beijava, que o apanhava e apertava de encontro ao coração. E eu, com uma exaltação confusa, procurava reavivar todas as minhas energias a fim de poder lhe fixar bem a imagem.

E estando assim ali a encher a alma, eis que a vejo recuar. Um táxi aproximou-se do meio-fio da calçada, parando.”

Foi por me sentir na pele de Jorge, que fui tocado por essa passagem. A descrição feita pelo autor foi, na minha opnião, sublime. Na cena, eram duas pessoas fazendo o máximo que podiam, com o melhor que tinham, e essas duas coisas eram, de certa forma, miseráveis, mas a beleza deste esforço é alta.

Mais adiante, ao receber a notícia de que a doença de Renata havia acabado por levá-la deste mundo, a despeito da melhora que ela tivera no dia anterior, a qual o enchera de extrema felicidade, o personagem experimenta o seguinte:

“(…)Como um avião desgovernado, em fúria, com os motores em rotação máxima, num ronco estertorante, despencando entre labaredas, senti a alma se desinserir de mim numa velocidade que a deformava em fantasma fluídico. Recuei o corpo como ante o estouro dum peso batendo numa queda de seiscentos quilômetros horários de encontro a uma cratera sonora.

(…) Aquela notícia passou por mim, da cabeça aos pés, como um fuso inflamado. Imóvel, transfixado num ecúleo, via passar estrias e riscos lixando meus sentidos. O mundo todo despencava-me vivisseccionando. E ali fiquei hirto como um eixo virtual. Trinta segundos? Um minuto? Um quarto de hora?

(…) Nisto tal pensamento me trouxe uma golfada súbita de pranto. Fiquei com a cabeça no ar como se, cortada, fosse cair. Minha fisionomia se deve ter deformado toda, de sufocação e desespero…”

É uma história triste, sem dúvidas, mas creio que não é o seu aspecto trágico que deve ser levado em conta, pois mesmo servindo para nos mostrar a experiência que alguém que vive a castidade pode passar diante da morte, ela foi capaz de nos mostrar o que acontece nos dias de paz e bonança, que vivemos quando tudo está normal.

E então o que podemos responder à questão feita no início, sobre o que estamos perdendo em não viver algo como os protagonistas desta história?

Significa vivermos abertos às possibilidade do amor, e o amor verdadeiro é, sempre foi e sempre será Jesus Cristo. Significa respeitarmos a pessoa com quem nos casamos, e jamais traí-la, independente do nível de afinidade e intimidade(espiritual) que se alcance com uma outra pessoa. Significa que podemos ter uma relação que é superior à amizade, com muitas pessoas, – não apenas com uma, como ilustrado nessa história, – relações que são fundamentadas por amor profundo e verdadeiro, e que portanto ampliam o valor da nossa existência.

Uma obra de Deus

Durante a maior parte do tempo
uma espécie comum
que não gera contento
que não desperta deslumbre algum

Passa mais que despercebida
Passa sem despertar a lembrança
de que um dia foi bonita
e de que será mesmo sem termos esperança

será por uma só estação
por apenas um momento
Nele veremos com o coração
o que foi ocultado sem intento

E estas estações vão se repetir
uma vez a cada ano
E eis que vamos perceber, sorrir
ao saber que sempre nos amamos

Então está a natureza sorrindo
nos levando a refletir
pois onde vemos um ipê florindo
vemos uma obra de Deus a reluzir

Detalhes que se perdem

Vi o sol por trás de nuvens
que mais montanhas pareciam
pois eram de tal solidez
que as leis da natureza inflingiam

O dia que muito ainda duraria
teve que em silêncio se despedir
pois sufocado pela escuridão que viria
ao seu túmulo teve de regredir

Mas em terras distantes amanhecia
mais cedo do que esperavam
Lá nenhuma pessoa percebia
e assim muita alegria desperdiçavam

Por quantas vezes sucedeu aqui
Graças dignas de canções?
Teríamos conseguido sorrir
sabendo o que perdeu nossos corações?