As camadas do amor

O filósofo e professor Olavo de Carvalho nos fala sobre as camadas do amor no vídeo – https://www.youtube.com/watch?v=ZrtkK7Akz-M . O professor nos expõe que não se trata de camadas em que a gente se encontre, como em sua definição das Doze Camadas da Personalidade, mas sim de fases em que podemos nos encontrar dentro de um relacionamento. Visto dessa forma, podemos incluir o aspecto da nossa maturidade, e somente ao fazermos essa inclusão poderemos saber em qual fase estamos mais propensos a vivenciar, dessa forma, bem como dentre as camadas da personalidade, se torna possível buscar evolução.

A evolução nas Camadas do Amor não é algo tão fixo quanto nas Camadas da Personalidade, pois nela estamos mais vulneráveis à mudanças, seja crescimento ou retrocesso, visto que existe um outro ser humano envolvido, o qual irá, com seus atos, contribuir para a mudança. Porém, quanto mais maduro e mais sábio formos, em maior nível estaremos e mais inabaláveis seremos, pois conheceremos muito bem a estrutura e o funcionamento dos relacionamentos humanos, até mesmo a psique humana, de forma que estaremos cientes das possíveis consequências dos nossos atos e das nossas omissões, daquilo que proporcionamos e daquilo que deixamos de proporcionar, dos sonhos que ajudamos a realizar, daqueles que impedimos de serem concretizados e dos outros que inserimos na vida da outra pessoa. Sabendo de tudo isso, não é difícil estar consciente das razões que fomentaram os atos da outra pessoa, sendo assim, em praticamente qualquer situação em que o relacionamento venha a se encontrar, este cônjuge terá ciência de seus atos e não se abalará diante das ações que a outra pessoa pode ter e que podem levar o relacionamento à estágios difíceis ou a seu término. Sua tristeza e seu ressentimento estarão, de certa forma, iluminados por sua maturidade e sua sabedoria, assim ele estará firme naquela camada do amor, saberá que jamais voltará a se satisfazer com manifestações amorosas inferiores a que ele se encontra, e saberá que não é necessário retroceder “nas camadas” para conseguir alguém, para não ficar sozinho.

No vídeo, Olavo começa nos falando das diferenças entre desejo, sexo e amor, para então partir para as camadas do amor. Segundo o filósofo, Desejo se refere à uma manifestação do interior para o exterior, uma excitação sem causa exceto a fisiológica, relacionada à química hormonal. Ao falar do Sexo, ele nos apresenta o inverso, que é uma excitação sexual que tem sua origem relacionada a algo externo, seja uma pessoa atraente para esta outra, uma imagem, uma lembrança, um perfume, etc.

Então Olavo inicia sua explanação sobre o amor, e somente então podemos mencionar uma camada, a primeira, naturalmente. Mas antes, uma explanação:

A base de todo amor é o desejo de ter a outra pessoa sem que haja um detalhe ou uma característica nela que te atraia especificamente, mas sim uma atração por toda aquela pessoa, o conjunto expresso e personificado por ela, seus aspectos internos e externos, ou seja, o que ela é, o que ela almeja, como ela se expressa, do que ela gosta, de como se porta, etc, além de todo seu aspecto físico, sua ligação com os aspectos internos, mas principalmente as nuances, o jeito de sorrir, de falar, de brincar, de xingar, de agradecer, de cantar, de se arrumar, de usar os cabelos, de exibir sua femilinidade, ou masculinidade, que seja, mas seria preciso acrescentar outros aspectos, mas pretendo escrever um texto unicamente para isso. Como diz Olavo no vídeo, “o desejo não é despertado por nenhuma característica física mais saliente, mas por uma impressão geral, indefinida e não localizada, de beleza ou charme, quase uma áurea mágica em torno do objeto desejado. (…) Geralmente a pessoa que ama não sabe apontar qual é o aspecto específico que a atrai naquela pessoa.”

A primeira camada:

“Logo após isso surge o enamoramento, a paixão, que torna o objeto uma presença obsessiva na mente do apaixonado. É aquele estado em que o apaixonado não consegue parar de pensar naquela pessoa, dia e noite. Aquela pessoa ocupa a imaginação dele e de certa forma o domina. Esta emoção é repleta de ambiguidades, trás invariavelmente consigo a ansiedade, o medo da rejeição, e aciona um conjunto de mecanismos psicológicos de defesa contra a frustração possível. É praticamente impossível que um sujeito nesse estado não sinta ciúme, e junto do ciúme vem uma raiva, um desejo de vingança, etc., as ditas ambiguidades.”

Praticamente todos os namoros passam por fases assim, então é a hora dele acabar, seja com a transcendência, com o amadurecimento do casal, que o faz acabar em casamento, ou seja pelo oposto, pela incompatibilidade percebida ou pela imaturidade que impede a árvore de crescer, então acaba em separação.

Essa fase é constituída por um tipo de amor embrionário. Ele existe em uma forma de deslumbramento, como uma árvore bela e frondosa, mas ainda sem raízes, vulnerável à ventanias e tempestades.

A segunda camada:

A bela árvore começa a lançar suas raízes para o solo, firmando-se na história, na realidade.

“Vencidas as ambiguidades, o enamoramento pode se consolidar num sonho conjugal, o anseio de ter a pessoa amada ao nosso lado para sempre. Nesse nível, o desejo assume tons de um valor moral, ou seja, aquilo passa a ser aprovado, ou louvado, pela comunidade; [ou seja, ganha aspectos de ser] destinado a manifestar-se na aceitação comum de sacrifícios para benefício mútuo, para a criação de uma família, para o enfrentamento das responsabilidades sociais, etc. A resistência maior ou menor às dificuldades pode levar a resultados que vão desde a criação de uma família estável, até uma variedade de desastres conjugais – que acontece na maior parte dos casos.”

Firmar-se na história e na realidade, exige aceitar a circunstância e transcendê-la. A circunstância pode se revelar diferente daquela que foi sonhada por algum dos dois, e neste pode faltar justamente a sabedoria e a força para dominar aquele lugar, aquele período, aqueles recursos e aqueles coadjuvantes, e então transformá-lo naquilo que foi sonhado. É um trabalho em conjunto, um casal é como um ser humano, enquanto um se forma por uma célula masculina e outra feminina, o outro se forma por um ser humano masculino e outro feminino, a árvore que menciono é uma alegoria a este, obviamente.

A terceira camada:

A bela, frondosa e florida árvore, instalada de uma vez para sempre na história humana, na realidade universal.

“Só no topo da experiência conjugal, com todas as suas ambiguidades, é que pode então surgir o verdadeiro e genuíno amor, no sentido pleno da palavra. [O amor] ganha impulso firme, constante e irrevogável de tudo sacrificar pelo bem da pessoa amada, de perdoar sempre e incondicionalmente os seus defeitos e pecados, de protegê-la contra todo mal e toda tristeza, ainda com o risco da nossa própria vida, e de conservá-la ao nosso lado como nosso bem mais precioso, não só nessa existência terrestre mas por toda a eternidade.

Neste último nível, o sexo propriamente dito perdeu toda a energia autônoma, e ou é esquecido ou passa a desempenhar um papel ocasional e bem modesto entre 1001 modos diversos de expressar o amor.”

Diante de todas as intempéries, a árvore vive. A árvore vive e viverá até que perca sua vida por completo, ainda que partida, queimada, podada, mal cuidada, castigada e sofrida, viverá.

Conclusão

“Cada um desses níveis engloba e transcende o anterior, e só quem chegou ao último e mais elevado compreende o que estava em jogo nas fases superadas, ou seja, quem não alcançou pode imaginar, mas não tem ainda a vivência concreta dos elementos todos que foram se incorporando na sua experiência do amor e tornando-a cada vez mais complexa e abrangente.”

Mesmo que não seja sua intenção, toda árvore, por si só, compõe uma paisagem.

“A coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns” – G. K. Chesterton

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