A importância da literatura para psicólogos

“Os melhores psicólogos que jamais existiram são, indiscutivelmente, os grandes escritores da história humana.” Não me recordo onde li ou ouvi essa frase, mas ela se instalou em mim como uma daquelas certezas que jamais serão colocadas em cheque.

Cada uma das histórias clássicas tem sua própria razão de estarem neste apogeu, mas o objetivo aqui não é entrar em méritos de literatura, mas de psicologia, portanto faz-se necessário destacar que os critérios que colocaram cada obra no referido apogeu não foram estritamente o de sua profundidade e assertividade psicológica, mas muitos outros, tais como o estilo, o domínio gramatical e lexical, a qualidade da expressão verbal da realidade a qual se refere(zeitgeist!), a filosofia contida no texto, seus efeitos históricos, a expressão completa do que se pretende expressar e até mesmo os efeitos que não foram intencionados pelo autor, etc., estes são apenas alguns exemplos.

Há quem diga que aquele que ler e compreender toda a obra de Shakespeare, terá uma formação em psicologia superior àqueles que se graduarem em universidades – as quais, obviamente, não exigem ou sugerem, a leitura dos clássicos da literatura universal.

Além de Shakespeare, temos Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Cervantes, Milton, Homero, Goethe, Dante, Stendhal, Milton, Conrad, Camões, Dickens, Proust, Whitman, Flaubert, e muitos outros.

Agora você deve estar se perguntando, o que há de tão rico, de tão profundo, em sentido psicológico, nas obras desses autores? Mesmo sem nos propormos a ler as obras dos autores citados com os olhos de estudantes de psicologia, poderemos ver com clareza descrições do que se passa num personagem durante um ato, o que o levou a fazer aquilo, e quais as consequências daquele ato em sua vida e em sua consciência, ou seja, podemos ver a “parte” interna e a externa, antes, durante e depois, sem depender da memória e da sinceridade do paciente, ou melhor, do personagem.

Existe uma ordem de romances denominada Romance Psicológico, é interessante, mas ela especifica muito a abordagem literária do autor, exigindo da obra elementos que as separam das dos autores que citei aqui, que por sua vez continuam merecendo ser destacadas por sua profundidade e amplitude psicológica.

As histórias clássicas foram, naturalmente, criadas com larga dose de ficção, de complementação imaginativa, vamos dizer, mas isso não as desqualificam de forma alguma. Considere que estas descrições foram validadas pelos leitores que tiveram contato com elas, o que vem ocorrendo desde seu surgimento, ou seja, estão sendo avaliadas há décadas ou há séculos, e vêm sendo aprovadas com grande êxito. Nem mesmo aquelas pessoas que se profissionalizaram como psicólogos rejeitam o que consta em tais obras, eles as consomem e as utilizam fazendo delas o terreno onde plantarão seus conhecimentos técnicos e práticos; este artigo se faz necessário justamente porque o consumo de literatura clássica, que deveria ser obrigatório para os graduandos em psicologia, não é mais sequer citado durante as aulas, ou não o é ao menos na maioria das universidades atuais – se é que isso torna o problema menor em alguma medida.

Enquanto você não aprecia a cultura literária clássica, você estará junto dos que ignoram a máxima: “Não é você quem julga a literatura clássica, é ela quem julga você.” Poder-se-ia dizer que você é obrigado a aprender a gostar de literatura, mas isso não é verdade apesar de os benefícios serem gerais. Cada indivíduo tem sua vocação. Não é a literatura que vai te procurar, é você quem tem de buscá-la. É possível viver bem sem ela, mas é mais seguro viver com ela, pois ela nos esclarece quanto ao bem e a verdade.

Muitos dos problemas atuais da civilização ocidental não ocorreria se o consumo da literatura clássica fosse um hábito dos povos. Isso ocorreria porque as experiências de vida, a sabedoria, contida em tais obras, é tão vasta e profunda, que é capaz de fazer com que os leitores adquiram conhecimentos que os livrarão de erros comuns, de confusões, de barreiras, de enganos e os proporcionarão esclarecimentos valiosos quanto a própria consciência, quanto a convivência familiar e em sociedade, quanto as virtudes, quanto a religiosidade, quanto ao tempo em que vivem, quanto às suas vocações, quanto suas próprias obras, quanto ao caminho ao qual levarão sua cultura individual e coletiva, quanto aos relacionamentos, quanto sua relação com a natureza, quanto sua relação com as artes e com o conhecimento, etc.

Depois de tudo isso que foi dito, eis o principal: não tire os olhos e o coração da realidade. De nada adianta ler muito e mesmo compreender muito, e esquecer-se de aplicar todo o conhecimento adquirido nas suas vivências, ou seja, não adianta aprender a ser, mas não sê-lo. O mundo da fantasia é belo e aconchegante, mas só num primeiro momento, pois quando a realidade o chamar e você não der ouvidos a ela, você passará a se atrofiar de forma que passará a ver a verdade de forma distorcida, como se visse o mar numa pintura e jamais o conectasse ao verdadeiro mar, que é mais frio ao sul do Brasil e mais quente no nordeste, que as ondas nos puxam para dentro da água, que por sua vez é muito salgada e pode conter algas, peixes, golfinhos, tubarões, baleias, lixo humano, enfim, que é magnífico ao pôr-do-sol, ao luar. Também jamais teria vislumbrado tudo o que escrevi, e imaginado ou se lembrado do que sentimos em tais situações. O bom psicólogo entende o ser humano e entende o mar, entende suas relações, entende a razão de eu ter feito essa comparação, e entende que a realidade é composta de mares muito mais longínquos e inacessíveis do que os que resplandecem nos litorais do nosso país e de todos os outros.

Publicado por paulohbaraujo

Católico, estudante de psicologia, autodidata em filosofia, literatura, poesia e música, atleta de musculação.

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