Ao ler o conto de Ivan Turguêniev, Os Cantores, presente na coletânea Memórias de um caçador, li um daqueles trechos que nos trás a vontade de relê-lo ao menos uma vez a cada dia. Por meio desse conto, o autor nos transmite um momento que ele presenciou em um bar no meio de uma estepe russa, onde dois homens conhecidos por suas habilidades em cantar acabaram por estar no bar juntos, o que fez com que o outros homens lá presentes propusessem um duelo entre eles.

O primeiro cantor(“Empreiteiro”) deixou a todos muito entusiasmados com suas habilidades vocais, com sua interpretação, tanto que a vitória lhe foi dada antecipadamente, e seu rival viu-se em tão maus lençóis que sentiu na pele o tamanho da missão que tinha a frente e pensou logo em desistir. Segue-se o trecho, mais que primoroso, solene talvez, do que sentiu e fez o cantor(Iakóv), antecipadamente derrotado, naquele bar isolado de todos os lugares e de todos os tempos, mas só não perdido nos registros dos grandes eventos, porque um viajante especial passava por lá no mais oportuno dos momentos:

O pobre mujique ficou perturbado, e já se preparava para se levantar e partir o quanto antes quando subitamente se ouviu a voz de cobre do Mestre Selvagem:

Mas que animal intragável é esse? – disse, rangendo os dentes.

Nada não – balbuciou Tonto -, nada, não… eu só…

Então se cale! – Retrucou Mestre Selvagem. – Iakóv, comece!

Iakóv levou a mão à garganta.

OIhe, meu irmão, aqui… tem alguma coisa… Hum… Verdade, não sei o que é…

Chega, coragem. Que vergonha!… Por que fica com rodeios?… Cante como Deus manda.

E Mestre Selvagem baixou a cabeça, esperando.

Iakóv fez silêncio, olhou ao redor e tapou o rosto com as mãos. Todos o devoravam com os olhos, especialmente o empreiteiro, em cujo rosto, por detrás da habitual confiança e alegria com o êxito, surgira uma leve inquietude involuntária. Encostou na parede e voltou a colocar ambas as mãos embaixo de si, mas sem balançar mais as pernas. Quando Iakóv finalmente descobriu o rosto, estava pálido como um morto; era escasso o brilho dos olhos sob os cílios abaixados. Respirou profundamente e pôs-se a cantar… O primeiro som de sua voz foi fraco e desigual, e não parecia vir do peito, mas proceder de algum lugar distante e ter entrado no aposento por acaso. Aquele som trêmulo e vibrante teve um efeito estranho a todos nós; entreolhamo-nos, e a mulher de Nikolai Ivánitch se aprumou. A esse primeiro som seguiu-se um outro, mais firme e prolongado, mas ainda de um tremor evidente, como a última vibração efêmera de uma corda ao receber o toque brusco de dedos fortes; depois do segundo som veio um terceiro, e, aquecida e alargada, a voz entoou a melancólica canção “Não havia um caminho nos campos”. Ao cantar, ele nos trazia doçura e horror. Reconheço ter ouvido poucas vezes uma voz daquelas: era levemente quebrada e parecia uma taquara rachada; no começo, tinha até um sabor doentio; contudo, nela havia uma paixão profunda e autêntica, uma juventude, uma força, uma doçura e uma espécie de aflição triste, fascinante e negligente. A verdadeira alma russa, ardente, soava e respirava nela, e, dessa forma, tocava nossos corações, tocava direto essas cordas russas. A canção crescia, se derramava. Iakóv fora visivelmente tomado pelo êxtase: não estava mais acanhado, entregando-se por completo à felicidade; a voz não balançava mais – ela tinha um tremor que era aquele tremor interno da paixão, quase imperceptível, que se crava como uma flecha na alma dos ouvintes, e ia ficando cada vez mais forte, mais firme e mais ampla. Lembro-me de ter visto uma vez, à tarde, na hora da maré baixa, à margem plana e arenosa de um mar que rugia, ameaçador e pesado, ao longe, uma grande gaivota branca: imóvel, ela oferecia o peito sedoso ao resplendor escarlate do crepúsculo, para só de vez em quando abrir lentamente as asas compridas ao encontro do mar familiar, ao encontro do sol baixo e rubro; lembrei-me dela ao ouvir Iakóv. Ele cantava, de todo esquecido de seu rival e de todos nós, mas visivelmente levado por nosso interesse silencioso e apaixonado, como um bravo nadador pelas ondas. Cantava, e cada som de sua voz irradiava algo íntimo e infinitamente amplo, como se uma estepe familiar se abrisse diante de nós, perdendo-se no horizonte infinito. Sentia meu coração em ebulição e lágrimas subirem aos olhos; soluços surdos e reprimidos me surpreenderam de repente… Olhei em volta, e a mulher do taberneiro estava chorando com o peito apoiado na janela. Iakóv lançou-lhe um olhar rápido e se pôs a cantar de modo ainda mais sonoro e mais doce do que antes; Nikolai Ivánitch baixou os olhos, Pisca-Pisca se virou; Tonto, completamente enternecido, mantinha a boca aberta de forma estúpida; o mujique rude soluçava baixinho no canto, balançando a cabeça com um murmúrio de amargura; e, por cima do rosto de ferro do Mestre Selvagem, debaixo das sobrancelhas totalmente caídas, rolava devagar uma lágrima pesada; o empreiteiro ergueu o punho cerrado até a testa e ficou imóvel… Não sei no que ia dar essa angústia generalizada se Iakóv não tivesse concluído de súbito, com um som alto e extraordinariamente fino, como se a voz se rompesse. Ninguém gritou, nem se mexeu; era como se todo mundo esperasse o que ele ainda fosse cantar; ele, porém, abriu os olhos, como se estivesse espantado com nosso silêncio, lançou a todos um olhar de interrogação e viu que a vitória era sua…

Iacha – disse Mestre Selvagem, colocando a mão em seu ombro e se calando.

Estávamos todos entorpecidos. O empreiteiro se levantou calmamente e foi até Iakóv. “Você… é sua… você ganhou”, disse por fim com dificuldade, e se precipitou para fora do aposento.

Aquele movimento rápido e decidido como que rompeu o encanto: de repente, todo mundo começou a falar alto e com alegria. Tonto pulava, murmurava e mexia os braços como se fossem as pás de um moinho; Pisca-Pisca, mancando, aproximou-se de Iakóv e se pôs a beijá-lo; Nikolai Ivánitch levantou-se e declarou solenemente que acrescentaria mais um vasilhame de cerveja por sua conta; Mestre Selvagem pôs-se a rir um riso tão bom como eu jamais esperei encontrar em seu rosto; o mujique rude volta e meia repetia em seu canto, esfregando com ambas as mangas os olhos, face, nariz e barba: “Ai, que bom, meu Deus, que bom, sou o filho de uma cadela se ele não é bom!”, e a mulher de Nikolai Ivánitch, totalmente enrubescida, levantou-se rapidamente e se retirou. Iakóv se deleitava com seu triunfo como uma criança; seu rosto se transfigurara por inteiro; seus olhos tinham um brilho especial de felicidade. Arrastaram-no até o balcão; ele chamou o mujique rude, que se debulhara em pranto, mandou o filho do taberneiro ir atrás do empreiteiro que, contudo, não foi encontrado, e o festim teve início.

“Você vai cantar de novo, você vai ficar cantando para nós até a noite”, repetia Tonto, erguendo alto os braços.