Temendo ser pretensioso, escrevo esse texto. É temendo descobrir a qualquer tempo uma ilusão em meu ser. Descobrir uma limitação que me impedia de ver minha limitação. Temendo estar errado em tudo o que fiz, que faço e que planejei fazer. Em ter um erro colossal na constituição da minha mente. Em ser mais um dos compatriotas que falharam em se conhecer, em perceber o que são e o que não são. Em estar confundindo o que gostaria de ser com o que realmente é. É temendo morrer de vergonha de mim para mim mesmo. É temendo um certo tipo de lágrima. É sabendo que vou cometer vários erros gramaticais. É tudo isso, e apesar de tudo isso, que escrevo sobre ser um poeta. É por escrever descontroladamente sem saber por que o faço e por não saber como deveria fazê-lo, que tenho tantos receios. Mas é principalmente por me deleitar tanto em coisas que saem de mim, ou por mim, que me permito expressar-me novamente. E também, se não o fizesse, sofreria de angústia; teria essa ideia indo e voltando ao pensamento, crescendo e se modificando, se fundamentando, se tornando bela, mas também sendo ofuscada, se dissolvendo, e de repente desaparecendo. E eu lembraria que tive uma ideia que me pareceu muito boa, mas que a dispensei, que a perdi. Sei disso porque já perdi várias, por vários motivos, e isso me gera uma certa tristeza, como se eu tivesse perdido a oportunidade de fazer a única coisa que importa.

Percebo que na maior parte do tempo fui uma pessoa introvertida, que desde criança há uma certa consciência que é madura desde o início, que me permite olhar para a realidade com toda a seriedade e toda a severidade que alguém pode ter no olhar.

É como se eu visse as coisas de um ponto externo. Como se eu sempre tivesse me mantido fora das situações em que estive presente, e nelas tivesse observado as pessoas, o ambiente, as nuances do clima do momento, as intenções das pessoas presentes, a presença do passar do tempo, as transformações, a existência do bem e do mau, do certo e do errado, a noção de fins e começos, a noção de eternidade.

Essa consciência sempre me faz sentir certeza que vejo as coisas da forma que elas realmente são. E as coisas são, em sua maioria, belas. E isso me arrebata, me encanta, me tira da quietude.

Demorei a saber que escrever sobre as coisas era uma opção. Mas logo que aconteceu, descobri uma atividade que farei por toda a vida, ou até ter escrito sobre tudo, o que obviamente é impossível.

Escrever é a forma mais pura de se expressar. Acho que a música é a forma mais completa e mais tocante, mas escrever é aquela que podemos fazer no imediato, quase que no mesmo momento em que temos a ideia, a fagulha.

Escrever poeticamente é a forma mais verdadeira de se expressar. Não basta descrever as coisas como elas são, é preciso descrever o que elas representam, onde se encontram na composição da realidade. É preciso explicitar as relações que cada coisa faz consigo mesma, com o ambiente, com os seres vivos que a compõem, com a história que se desenrola no momento, com as reflexões dos seres humanos ali presentes, com a visão do conjunto e com a noção de atemporalidade, de universalidade, de unicidade e de eternidade. Inserir a sobrenaturalidade é para poucos, mas é essencial para encerrar a realidade.

Existem pessoas que vivem com os olhos e o coração abertos para absorver a realidade, e daí decorre a possibilidade de se espantar com algo, e de então querer expressá-lo, de não se conter até fazê-lo. Eis os poetas. Bons ou não, eis os poetas.

O que é um bom poeta? Não recorri a qualquer descrição aceita academicamente, cientificamente, recorri apenas à minha percepção. Um bom poeta é aquele que sabe perceber tudo e expressar tudo, da forma correta, fidedigna, e expressando-se na exata medida que o objeto observado exige. É aquele que sabe perceber e expressar a um só tempo aquilo que vê e que sente.

O bom poeta está aberto às verdades descobertas e expressadas em todas as épocas.

O bom poeta é aquele que suspeita das origens de suas inspirações. É aquele que sente-se tocado pelo sobrenatural, que volta os olhos a Deus.

O bom poeta é aquele que sabe chorar e sorrir por dentro, ou o faz sem saber que o faz.

O bom poeta sabe tornar visível a beleza das coisas, mesmo a beleza daquelas coisas que todos olham mas não enxergam.

O bom poeta enxerga a história em curso, o valor das coisas.

O bom poeta saber perceber quando não está conseguindo expressar o que vê e sente, mas também sabe quando o está.

Assim ele é, desde o nascimento e por um aprimoramento contínuo.

Como são diferentes as almas dos poetas? É preciso destacar o quanto os não-poetas estão imersos em suas próprias vidas, tanto que não olham ao redor, e se olham não enxergam, e se enxergam não sentem. Se o mundo fosse composto somente por eles, as coisas belas seriam dispensáveis, só caberia o bem-estar, o conforto, o cumprimento da jornada. Aos olhos deles, tudo é estéril, mecânico, cinzento, por mais que possam negar.

É possível tornar-se poeta? Não sei. Acredito que não, acredito que ser poeta é questão de vocação.

O que as pessoas comuns podem fazer? Transformarem-se em consumidores de poesia. Abrirem suas almas, suas consciências, seus seres.

O que um poeta diria sobre a sua profissão? além do que já disse, eu diria que me vejo fazendo o ofício intelectual mais importante que existe, e que exerce um dos ofícios espirituais mais próximos do sagrado.

Vemos crianças se consolidando como cientistas, médicos, músicos, matemáticos, mas não vemos crianças se consolidando como poetas, raramente vemos adolescentes e jovens adultos. É preciso observar a realidade por décadas para começar a querer expressar algo em forma de poesia, e é preciso nascer com esse tipo de anseio, essa necessidade sufocante de expressar o canto de um pássaro numa tarde tempestuosa, percebido dentre os sons da água, do vento e dos trovões, associado-o com grandes dramas da vida humana, com assertividade, com expressividade, elegância e beleza.