Há poucos anos voltei a ser católico. Meu retorno foi como o de muitos por aí: nós somos criados por uma família católica que não tem conhecimento dos fundamentos da fé, e portanto que não têm respostas para um adolescente que quer explicação para tudo. Diante da falta desta, nos afastamos, procuramos outros caminhos, sonhamos com outras verdades, e então, por um milagre encontramos o fio da meada, puxamos o primeiro fio, sem pressa, e então de repente percebemos e dizemos para nós mesmos que somos cristãos, que somos católicos. Só pode ser um milagre, pois não importa qual pergunta seja, a resposta aparece.

Não vou descrever todo o meu processo de retorno, talvez um dia falarei disso e lá colocarei as minúcias, todas elas. O importante é saber que estudar a Bíblia, o catolicismo, a história da Igreja, as vidas dos santos, alguns filósofos, se tornou algo muito importante para mim, e naturalmente me deu uma base de conhecimentos, a qual estou ampliando constantemente, aos poucos, mas constantemente.

Me parece fácil presumir, talvez até óbvio, que nós humanos teremos a vontade de falar sobre as coisas que mais nos são caras, sobre as coisas em que mais nos dedicamos, com isso quero dizer que falar de Deus, do Cristianismo de forma geral, se tornou um dos meus temas prediletos.

No início deste ano conheci uma garota na faculdade, e logo descobri o quanto ela era dedicada ao exercício de sua fé, que era, e continua sendo, de uma vertente Evangélica. Apesar de ser uma vertente reformista, acabávamos concordando na maioria dos tópicos sobre o qual conversávamos, e isso me levou à convidá-la para ir à uma Missa comigo, uma Missa Tridentina, vale destacar, bem como passei a ter interesse em participar de algum culto, louvor ou célula, que ela participasse. Estou escrevendo esse texto cerca de vinte e quatro horas após acompanhá-la em, creiam, duas células seguidas. Uma experiência intensa, uma verdadeira imersão.

Uma Célula é organizada de maneira muito diferente de uma Missa tradicional, e claro que esse foi o aspecto que me chamou a atenção no primeiro momento. Em seguida, senti falta das menções à Maria, Nossa Senhora, Mãe de Deus, de menções aos santos e mártires, e também ao fato de que as palavras citadas eram retiradas exclusivamente da Bíblia, e tudo isso se complementa com canções temáticas e testemunhos. Claro que eu imaginava algo mais ou menos assim. O principal a dizer é que o objetivo ali era, aproximar Jesus Cristo à cada um dos indivíduos ali presentes, e nenhum católico pode afirmar que este objetivo é errado, pecaminoso ou o que quer que seja.

Eu poderia citar uma série de coisas das quais não concordei ou considerei explicitamente inadequadas, mas o objetivo não é esse, tanto pelo contrário, meu objetivo é destacar o que me chamou atenção positivamente.

Cristo nos ama a todos. Cristo quer que escolhamos ser bons cristãos para alcançarmos sua misericórdia e sermos salvos. E ao observar todas aquelas pessoas me perguntei, por várias vezes, como Cristo veria tudo aquilo, o que Ele diria sobre os caminhos que seguimos, eu e aquele grupo de pessoas, se realmente havia algum mais correto que o outro, algum mais santo, mais adequado, algum que levasse de modo mais rápido a Ele.

Ao me perguntar sobre o que era mais correto a se fazer, uma enxurrada de respostas me vieram a mente, todas dizendo que o catolicismo tradicional era o mais adequado, que era na verdade o único criado e pavimentado por Nosso Senhor. Mas ainda assim eu queria saber mais. Eu queria saber, no caso de eu ter pensado na resposta correta, o que Ele faria com todo aquele pessoal. Não tenho dúvidas de que fui de uma pretensão muito grande ao querer saber dos planos de Deus, mas acabei por fazer uma breve oração ali mesmo naquela hora, onde pedia que Ele ajudasse todas aquelas pessoas a serem salvas, independente da maneira, independente do caminho. Me limitei a isso pois nada além disso poderia ser de minha responsabilidade perante Ele, mas me coloquei a disposição de seus intentos.

É indiscutível o bem que o Evangelismo faz nas pessoas ao erguê-las do lamaçal do mundo e colocá-las em chão firme, são inúmeros os casos de pessoas que deixaram uma vida de vícios ou de crimes para trás, pois encontraram, passaram a enxergar, a presença de Deus em suas vidas por meio das palavras de uma pessoa evangélica. Ao refletir sobre isso, me dei conta do quão mais fácil é ser um bom evangélico, do que é ser um bom católico. Esse “fácil” tem seu aspecto positivo e seu aspecto negativo; positivo porque pode ser aplicado de forma imediata em praticamente qualquer pessoa, e negativo porque pode, e é bem provável que assim seja, inserir a pessoa numa crença que não representa Jesus Cristo como Ele realmente é, de forma que se assemelha à adaptar Jesus àquela pessoa, e não à adaptar aquela pessoa à Ele.

“O estudo levará você a Cristo.” – Hugo de São Vítor. Essa frase me faz crêr que o bom cristão dedicará a maior parte de sua vida, quando não toda ela, a se aproximar de Deus, à absorver o maior número possível de informações referentes a o quê, a como e a quem Deus é exatamente, para direcionarmos a nossa fé da melhor forma possível. Esse é um dos dois pontos de vista que tenho acerca de ser católico, o outro se manifesta nas pessoas simples que são e agem de forma santa quase que naturalmente, espontâneamente, sem ler toda a Bíblia, sem conhecer às histórias dos santos, sem conhecer a história da Igreja, mas apenas por ter uma profunda experiência sobre o que é viver com Deus, estar na presença de Deus, agir conforme Ele diz que devemos agir. Portanto, as duas possibilidades que enxergo me parecem distantes demais para muitas pessoas, pois exigiria uma conversão, uma mudança de atitudes e comportamento muito mais profundas e imediatas do que o que é proposto no Evangelismo. Não irei entrar no mérito do que é certo ou errado, o importante aqui é que alguma pessoa se aproximou de Cristo, e que ela jamais estará limitada àquela devoção, sempre haverá a possibilidade dela crescer, mudar, enfim, quero dizer me parece sensato crer que em tais casos uma grandíssima vitória ocorreu.

É comum vermos evangélicos se convertendo ao catolicismo, e vice-versa, e então me surgiu uma outra reflexão: o quanto um deve se dedicar a converter pessoas da outra vertente para a sua. A resposta que me surge é que o correto é que cada indivíduo busque a Verdade incessantemente, e que esteja aberto aos caminhos existentes, que realmente se dedique a obter mais e mais conhecimentos, para que muna sua fé com a maior quantidade possível de informações, isso é ser santo. Isso me parece benéfico a todos. Fazer isso e orar, pedir humildemente à Jesus para que Ele nos leve para cada ver mais perto Dele.

Espero que esteja claro que estou apenas expondo minhas reflexões, e que não estou dizendo o que cada um deve fazer.

Ao final dos dois eventos me sentia satisfeito, mais próximo de Cristo do que me sentia antes dos eventos, estava em paz, estava feliz. Não sei o que as pessoas ali sentiram ao final, não sei se havíamos tido um momento realmente sagrado, sem sacrilégios, e que portanto aquele bem que eu experimentava não era consequência de outros fatores. Mas devo lembrar-me: Mateus 18:19 “Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.” 20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”

Os bons cristãos pedem pela salvação de seus irmãos, todos nós somos irmãos um do outro, e é somente isso o que importa.