(Texto publicado no facebook em 24/12/2018)

Texto para a querida amiga Regina, a quem espero alegrar com a verdade e com a tranquilidade que encontrei nas palavras de livros que li nos últimos anos, e para que nesta data que marca o primeiro ano de falecimento de seu marido Jorge, ela possa se sentir melhor e se fortalecer para encarar os anos de vida que tem pela frente.

Se nós pudéssemos escolher entre conhecer a resposta da maior pergunta da humanidade e não poder contá-la a ninguém, ou ficar estudando e especulando sobre ela a vida toda mas sem jamais poder afirmar que chegamos à resposta correta, o que será que escolheríamos?

Se esta questão envolve a morte, certamente a maioria das pessoas preferiria especular o maior tempo possível, e só depois morrer de verdade, já que é algo inevitável e geralmente temos medo dela. Mas como esta escolha não nos cabe fazer, existimos sob as ordens Daquele que criou todo o universo e que tem o direito e o poder para decidir sobre as nossas vidas, ficando assim, por nossa responsabilidade, a única – mas difícil – missão de nos prepararmos para a nossa derradeira hora… Os dois tipos de pessoas que tendem a estar mais preparados que a maioria, são os Santos e os Filósofos, os primeiros porque chega a se unir com Deus de forma tão íntima que acaba conhecendo como as coisas são além desta realidade, esta que todos vêem. Os segundos porque absorvem dos maiores pensadores que já existiram neste mundo, suas reflexões acerca do que realmente pode existir para além de tudo isso.

O Sr. Jorge integrava o segundo grupo, portanto certamente tinha um conjunto de conhecimentos acerca da morte, suficiente para tirar conclusões e poder formar a sua crença, algo que exclui o terrível medo do desconhecido, que ocupa a mente da maioria das pessoas que não se debruçaram sobre o estudo das questões mais profundas, como esta. Saber que um ente querido viveu com este esclarecimento, é algo que deveria nos tranquilizar…

Séculos antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, – Este a quem dedicamos as celebrações do dia de hoje – Sócrates, o fundador da filosofia, alguém que pela inteligência e honestidade reconhecia as inconsistências da crença da sociedade em que ele vivia, percebia coisas que indicavam que a Verdade era bem específica, e que qualquer outra seria insustentável em sua constituição teórica, ou seja, sem saber ele anunciava o Cristo, anunciava o Verdadeiro Deus, ele expunha raciocínios que ninguém conseguia vencer, raciocínios que seriam de certa forma incorporados por Jesus Cristo, a Verdade Absoluta.

Temos registrado em livro o julgamento que decidiu sobre a vida de Sócrates, que mesmo diante da possibilidade de morte, optou por defender o que era verdadeiro, o que era justo. Sem saber exatamente o que viria depois desta vida terrena, baseando-se apenas nos conhecimentos prováveis e sustentáveis diante de todos os questionamentos apresentados, ele disse: “(…) temer a morte, senhores, nada mais é do que pensar que se é sábio quando não se é, uma vez que se consiste em pensar que se conhece o que não se conhece. De fato, ninguém sabe se a morte não é, inclusive, a maior de todas as bênçãos para o ser humano, ainda que este a tema como se soubesse que é o maior dos males.¹”

Séculos depois, São Thomas More, aguardando o momento de sua execução por decapitação, meditou sobre o medo da morte, sobre nossas reflexões geralmente angustiantes de se morrer cedo, unindo a este raciocínio a reflexão acerca da vida após a morte, sobre os “lugares” para onde podemos ir e como relacioná-los com nossas angústias, e então concluiu que não devemos nos preocupar sobre quando e onde nós ou nossos entes queridos irão morrer, mas se irão para o inferno ou para o céu. Encontramos em seu livro A sós com Deus – Escritos da prisão, as seguintes palavras: “(…) sabes com certeza que um dia terás de morrer, e também que não podes ter uma vida longuíssima, pois a vida do homem sobre a terra é muito breve. Finalmente, suponho que não duvidas de que, quando chegar o momento em que estiveres doente e acamado, começarás a sentir as angústias da morte que se aproxima, e refletirá profundamente sobre ela, podendo então desejar que lhe fossem dadas opções sobre a salvação da tua alma, e que para alcançá-la escolheria até mesmo que tivesses padecido de uma morte cruel e terrível muito antes.²* (…) Queridíssimos, quando Deus vos provar com o fogo das tribulações, não estranheis, como se vos acontecesse uma coisa muito extraordinária; antes, alegrai-vos por participardes da paixão de Cristo, para que, quando se revelar a sua glória, vós vos alegreis também com Ele cheios de Júbilo”².

O Catecismo da Igreja Católica, em seu parágrafo 1690, nos diz: “(…)Com efeito, ainda que mortos, não estamos separados uns dos outros, pois todos percorremos o mesmo caminho e nos reencontraremos no mesmo lugar. Jamais estaremos separados, pois vivemos por Cristo, e agora estamos unidos a Cristo, indo em sua direção… estaremos todos reunidos em Cristo”.

1 – Trecho extraído do texto original: Platão, “Diálogos Socráticos III – Apologia de Sócrates”, Edipro, 2º Edição, 2015, 29a – 29b, p. 150.

2* – Texto adaptado: Thomas More, “A sós, com Deus – Diálogos da prisão”, Quadrante, 2º Edição, 2017, “Meditação sobre a morte”, p. 157.

2 – Trecho extraído do texto original: Thomas More, “A sós, com Deus – Diálogos da prisão”, Quadrante, 2º Edição, 2017, “Meditação sobre a morte”, p. 157.

3 – Trecho extraído do texto original: “Catecismo da Igreja Católica”, Edições Loyola, 2011, pr. 1690, p. 460.