Seu carro precisava ter o reservatório de água trocado, depois do trabalho Berton o deixou numa oficina perto de sua casa, para pegá-lo na manhã do dia seguinte.

Era meados de agosto, o frio invernal, severo para os brasileiros do sudeste, havia passado há poucas semanas. A brisa parecia reconfortante como nunca, o sol do entardecer lançava seus raios douradíssimos sobre as casas daquele bairro de classe média e sobre as árvores que agora abriam mão de sua folhagem castigada pelo frio, como se fosse por esperança que elas fizessem isso, esperança de que por compaixão a natureza fosse lhes proporcionar folhas novas, fortes e verdes, capazes de lhes manter vivas.

Berton descia um longo morro, caminhando, algo que não fazia havia alguns meses. O horário trazia as pessoas de volta à suas casas, e lhe parecia que o ritmo, a fluidez, a constância, transmitia a felicidade das pessoas que retornavam a seus lares, satisfeitas por terem cumprido a obrigação do dia, da mesma forma que a natureza fazia por aqueles lados, exibindo-se desgastada, mas bailando serenamente no compasso do vento que vez ou outra surgia elevando os galhos e suas sombras, obrigando os passarinhos a adaptarem-se à correnteza para manter a direção, lançando ao alto algumas das folhas caídas, que erguiam-se num salto e desciam rodopiando junto das folhas que experimentavam a queda pela primeira vez.

Era uma sinfonia. Uma sinfonia simples, discreta, sem solos, e sem trechos de grande complexidade, poucos instrumentos também, claro, mas uma sinfonia. E os sentidos de Berton captavam-a como a própria Valsa das Flores, de Tchaikovsky. O ar invadia seu peito, energizando-o e alegrando-o ao mesmo tempo, e memórias largadas ao pleno esquecimento retornavam em sequência, memórias que revelavam um segredo que ele jamais esqueceria: os momentos felizes parecem ser registrados na memória sobre um papel feito das notas mais sofisticadas que a natureza lançava-lhe enquanto os fatos se desenrolavam, mesmo que tais notas não tivessem sido sequer notadas enquanto tudo acontecia.

Essa sequência de lembranças, esse arroubo de paz, e finalmente o contato com algo que ele gostava de forma tão profunda, o fizeram vislumbrar as razões que o distanciaram de tudo isso, que bloquearam seus sentidos de forma tão avassaladora… Não haviam dúvidas. Havia sido a paixão por uma mulher. Uma paixão e uma grande história que durara muito pouco tempo, deixando nele uma saudade que nunca haveria de ser extinta, mas que ele decidira transformar em amor, num amor que deixasse talhado em seu coração a certeza de que mesmo se nunca mais visse sua amada, sentiria no peito a certeza de que a deseja muito bem, de que está disponível para ajudá-la se alguma desgraça lhe acometer ou mesmo se alguma saudade inesperada brotar em seu peito.

Tudo isso formou-se num piscar de olhos. E então ele abriu os olhos para a realidade tendo o peito preenchido por esta nova percepção, e então sentiu um novo desejo. Um desejo de ter sentido aquela simples presença da natureza ao lado de sua amada, enquanto estavam juntos, felizes e sentindo a eternidade unir-lhes por um fio de aparência mais firme que a corrente que segura a âncora de um navio transatlântico.

Ao chegar ao pé do morro, Berton dobrou à direita e vendo uma nova paleta de cores composta pelas buganvíleas que lançavam-se de dentro dos terrenos por sobre seus muros, sentiu-se maravilhado e poderia até mesmo dizer que outra música, outro ambiente e outro devaneio ressoava em seu peito, agora, talvez fosse o Dueto das Flores, de Leo Delibés. O raios solares, certamente bem corados, o vento aquecido, os passarinhos, o azul do céu, o frescor do entardecer, a paz de ter na vida todas as coisas certas, inclusive os problemas e limitações.

Assim surgiu em seu âmago uma dúvida que o fez suspirar por pura incompreensão: por que não estivera com ela em um momento como aquele? E então percebeu algo que lhe fez parar um momento e olhar cuidadosamente para tudo o que havia ao redor, um momento simples como aquele era a expressão fidedigna da realidade, bem mais do que os momentos que compuseram as situações em que estiveram juntos, fosse no trabalho, no carro, em restaurantes chiques, em shoppings, em supermercados, na mesa da cozinha do prédio em que trabalhavam, em motéis, no telefone, enfim. Parecia que em todos esses momentos havia um pouco de fingimento, um falseamento da realidade, como se a existência deles e portanto do desenrolar de sua história, ocorresse sem o fio que os conectava a eternidade da maneira que ocorria quando estavam tão unidos que o único elemento que seus sentidos captavam eram o corpo e a alma do outro, sem nada no meio, sem nada filtrando ou impedindo o contato direto, orgânico e sobrenatural, irascível e indiscutivelmente verdadeiro. Quando um pertenceu ao outro. Quando um fora o universo do outro.

Aproximando-se de casa, Berton sentia-se meio que deslumbrado pela beleza do pensamento que lhe ocorrera, como se não esperasse que da tradução de seus sentimentos viesse algo tão nobre, tão amável. Esse momento não era expressável em música, mas justamente naquela sensação que temos quando se encerra uma música que estávamos gostando muito de ouvir, em certo êxtase, sem dúvidas, uma satisfação pelos trechos de suspense, de alegria, de tristeza, de drama, a ponte, a virada e o clímax. O todo se revelara uma obra prima. Berton estava de volta à sua casa.